terça-feira, 23 de outubro de 2018

RECORRENTES SÃO

AS UTÓPICAS PREGAÇÕES
QUE VISAM EXTASIAR
"GREGOS E TROIANOS."
(ESCRITORTERCIO)



















VIDÊNCIA E LOUCURA
TÉRCIO STHAL

Enquanto videntes dizem ver 
o futuro nas bolas de cristal, 
artesãos e formigas garantem 
o almoço e o jantar.

Enquanto o coração amante 
compõe o ardor do amor eterno,
a loucura do escriba forja 
lancinante naufrágio.

E o leite, 
depois da fervura, 
transborda.



REVERÊNCIA E DEVOÇÃO
TÉRCIO STHAL

Todo mito e todo herói se sustenta 
da fé, da ternura e do amor
de carentes e obcecados.

Os que cultuam mitos e heróis,

dançando no salão ou lutando na arena, 

imaginam que sempre vencerão.


Na devoção, apelo e alto impacto, 
fogo da fornalha em fagulhas que consomem,
ardente sacrifício e calos à mostra sem sapatilhas.



TURBULÊNCIA
TÉRCIO STHAL

Mergulhando entre as sombras
como quem quer ser linguagem,
como quem quer ser estandarte,
como quem quer o similar e o diferente,
como quem quer o ser e os seus reflexos,
tentando descobrir concepções, histórias, 
valores, comportamentos, merecimentos
e recompensas dos crimes e castigos.

Nos umbrais da porta, 
janelas fechadas,
cordas do violino quebradas
e no coração ferido

melodias sem sentido,


Retratado como cantor sem língua,
como dançarino sem pernas,


pássaro sem asas, 
palhaço sem graça,
por saber que nem tudo passa
vai morrendo sempre à míngua.

Com quase nada ao seu entorno,
vitimado por turbulentas águas
do constante e insistente retorno.

Ora mirando o Rio Negro
e sentindo intenso pavor,
com os pelos arrepiados
e o rosto perdendo a cor.

Como se estivesse diante do Mar Morto,
prestes a perder os sentidos, absorto,
abstraído por não ver o seu rosto refletido.

Vendo nos colchões e lençóis da densa noite
e em outros gigantescos mares abertos
embarcações que naufragam aos açoites
e são conduzidas a destinos incertos.


Cordas do violino quebradas
e no coração ferido

melodias sem sentido.



Cantor sem língua,
dançarino sem pernas,

morrendo à míngua.


Pássaro sem asas, 
palhaço sem graça,
morrendo à míngua.




SE VALE A PENA OU NÃO VALE NADA,

QUE DEVE DECIDIR CADA JOGADA?
SE INTEGRO O TIME PARA SER ÍNTEGRO,
DEVO OU NÃO DEVO ENTREGAR O OURO?
(ESCRITORTERCIO)














SEGREDOS E MISTÉRIOS
TÉRCIO STHAL

Quisera dizer
a verdade,
mas não a conheço,
por inteiro.

Quisera mostrar
o caminho,
mas não conheço


todo o trajeto.


Quisera explicar
a vida,
mas não conheço
a razão de ser.

Quisera desvendar
segredos e mistérios,
mas não sei onde está
a chave que abre o cofre.




NÂO
TÉRCIO STHAL


Não,
não farei de minha vida
um lugar inabitável,
não construirei monturos,
nem vou ajuntar
cousas desprezadas,
desprovidas de valor
ou descartadas
em dias obscuros
ou em noites sem luar.

Não,
não farei monturos,
nem visitarei os que existem.

Não,
por menos que tudo
eu não entregarei a minha vida.



DESCONSTRUÇÃO
TÉRCIO STHAL

Traspassei meu coração
com uma espada de prata.

Com o machado cortei
a minha cruz de madeira.

Quase nada sobrou de mim,
a não ser o que nunca fui.

Espalhado por toda parte vi
o que de mim havia sobrado.



TAMANDUÁ
TÉRCIO STHAL

Se me ponho a cirandar
com as formigas
tem sempre algum tamanduá
me comendo com os olhos.

Se me ponho a voar
com os pássaros
tem sempre algum estilingue
municiado com pedras.

Se me ponho a cantarolar
imitando as cigarras
tem sempre alguém à espreita
para ver o meu peito estourar.

Mas quando viro tamanduá
correm as formigas,
voam os pássaros

e as cigarras param de cantar.




AINDA VIVO
TÉRCIO STHAL

Enquanto o dia 
se apaixona pela noite, 
avantesmas invadem e assombram.

Eu ainda ouço 

pássaros
mesmo quando estão


em silêncio.


Eu ainda vejo
borboletas
mesmo quando vão
sem asas.

Eu ainda sinto
nuvens
que viajam ou não
no céu.

Eu ainda falo
mesmo quando faltam
na boca
as palavras.

Eu ainda degusto
o que dá prazer
e desperta no coração
amor.

Enquanto a noite 
se apaixona pelo dia,
dentro de mim confirmo que eu vivo.